Saudades De Uma Humanidade

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Quem está feliz com a religiosidade de hoje, levante a mão.

 

Era o que eu pensava…

 

Muito pouca gente!

 

E há muitos motivos para isso. Acho que percebi mais um.

 

Mais um entre tantos.

 

Conversando com uma senhora bem idosa notei algo no discurso dela que já me é comum também.

 

(sem piadinhas infames!)

 

Os antigos tem saudade da maneira como as pessoas se relacionavam antigamente.

 

Daquela senhora idosa escapou sabedoria e ela me disse:

 

“Não espero que a igreja seja como era antes, porque isso é impossível, aquela igreja não volta mais…”

 

As razões que ela deu pra isso foram ainda mais sábias. Nos exemplos que dava ela relatava uma mudança comportamental e social.

 

Parafraseando o que ela queria dizer: “Não foi a igreja que mudou, foi o mundo inteiro, nossa sociedade toda”.

 

Se você tem mais de 25 anos de igreja, ou menos que isso, mas morava no interior do país, vai reconhecer essas situações:

 

As pessoas se reuniam para conversar.

 

Vizinhos se conheciam.

 

As pessoas da sua rua, faziam parte de uma mesma comunidade.

 

Na igreja, todo sábado era dia de “junta-panela”.

 

Todo sábado era dia de encontros pós e pré programas jovens.

 

Que por sinal, eram jovens mesmo, porque eles estavam todos lá.

 

Os juvenis sonhavam em ser um dia como os jovens.

 

Os ainda mais novos sonhavam com o clube de Desbravadores.

 

Que muito mais do que um encontro regular em nome de qualquer tipo de competitividade era uma encontro entre amigos de aventura.

 

Ah! E era só pra isso que a competitividade servia, pra fortalecer a sua “unidade” entre amigos.

 

As viagens eram animadas.

 

Me lembro de ficar triste, quando saia nas minhas férias particulares com minha família, e não poder ir junto com meus amigos da igreja.

 

Queríamos mais comunhão, mais presença, mais engajamento.

 

Amávamos isso! Eramos assim.

 

Mais irmãos do que hoje, com certeza.

 

No entanto, aprendemos a viver sozinhos.

 

E gostamos.

 

Começamos a descobrir as vantagens do individualismo.

 

Do isolamento.

 

Da particularidade.

 

Dizem que na América do Norte isso começou com a invenção do Ar-Condicionado.

 

As famílias que saiam para as ruas para pegar a brisa e frescor do fim de tarde, conversavam entre sí e conviviam.

 

Então surgiu o Ar-Condicionado e logo depois a Televisão.

 

Entramos em casa e não saímos mais de lá.

 

A verdade é que estamos nos profissionalizando em nossa vida solitária.

 

Crescem as incapacidades de relacionamento.

 

Os números de sociopatas.

 

As doenças da mente.

 

Ansiedade, depressão, transtornos e perversões.

 

Com o advento das tecnologias de comunicação imediata cada vez mais poderosas como os celulares e a internet,

 

É possível estar presente, e não estar.

 

Nunca pensei, 15 anos atrás, que pudesse escrever essa frase ai em cima com algum sentido literal.

 

Essas caracteristicas, não tem nada a ver com a igreja ou a religiosidade.

 

Somos nós que estamos mudando.

 

Nosso jeito de “CONVIVER”.

 

“VIVER COM”…

 

…o outro.

 

Está cada vez mais difícil, mais improvável, mais incomodo, mais intolerável.

 

A nossa preferência pessoal tem sido relacionamentos cada vez mais superficiais, impessoais e menos envolventes.

 

Completamente desconectados. Por incrível que pareça.

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Igreja é Ekklesia.

 

Ekklesia é Ajuntamento.

 

Não existe igreja num contexto assim, simplesmente porque não existe “ajuntamento” em nenhum nível além do físico.

 

Não se trata de estar no mesmo ambiente ou filas de banco e onibus lotado, seriam igreja também.

 

Trata-se de um “Ajuntamento” com duas caracteristicas bem peculiares:

 

Precisa ser real, a ponto de nos chamarmos de irmãos (1) e buscarmos juntos a vontade de Cristo (2).

 

A igreja passa, dessa maneira que está, a ser um local irrelevante.

 

Não se encontra com ninguém lá.

 

Muito menos com Cristo.

 

Relacionamentos incorrem em algum tipo de dependência.

 

O que simplesmente não ocorre de forma alguma. Não há vínculos.

 

Relacionamentos são vínculos.

 

E nós estamos perdendo todos.

 

Um de cada vez,

 

aos pouquinhos,

 

ao longo dos últimos 30 anos.

 

Isso atrapalha o nosso RELACIONAMENTO com Cristo também.

 

Se não sei manter vinculos humanos, não vou ter condições de manter meu vínculo com o Homem-Deus.

 

Cada vez mais distantes, um do outro.

 

Essa distância percebi inclusive em mim.

 

As vezes que não quero pessoas por perto.

 

Por outro lado,

 

como o companheirismo faz falta!

 

E junto com ele, suas pizzadas, brincadeiras, interações, conversas, intimidade e cumplicidade.

 

Coisas que hoje vemos como complicadas, difíceis e desmotivantes.

 

“Não quero intimidade com ninguém, não quero aproximação, não quero ninguém cuidando da minha vida”.

 

“Não quero ninguém atrapalhando meus planos pessoais de entretenimento, de sossego ou talvez de intimidade com umas 3 pessoas de sempre”.

 

Não. Não foi a igreja que mudou.

 

Nós mudamos.

 

E essas mudanças não tem volta.

 

E eu já to começando a sentir saudades,

 

como aquela senhora,

 

do tempo em que eramos mais humanos.

 

Não é uma questão de falta de fé. Ou uma falta de espiritualidade na igreja.

 

Falta humanidade.

 

Faltam Vínculos.

 

Eis a razão de qualquer saudosismo religioso.

 

A igreja não era melhor antigamente porque tinha mais conhecimento, mais doutrina, mais organização.

 

Ela tinha mais amor.

 

Mas isso só nos faltará cada vez mais, até o fim…

 

“E, por se multiplicar a iniqüidade, o amor se esfriará de quase todos”. (Mat 24:12)

 

Que não se esfrie em mim! Não mais…